
Vigiar sem punir
By Fernando Henrique Cardoso
O Estado de São Paulo, O Globo and Zéro Hora, March 3, 2008
Tomo emprestado, modificando-o, o título de Michel Foucault, assim como poderia ter intitulado este comentário Crime sem castigo, parodiando Dostoievsky. Não que eu tenha a pretensão de analisar os fatos com a argúcia filosófica de um ou a dramaticidade estilística do outro. Quero apenas reiterar o óbvio: quanto mais apregoamos a vigência de leis, regras e sanções, na prática, mais as desmoralizamos.
Nesta semana os
jornais noticiaram um episódio pouco comum: governo cede e oposição ganha a
presidência da mais nova Comissão Parlamentar de Inquérito, a dos cartões
corporativos. Suspeita-se que houve acordo espúrio. Tudo isso com o pretexto de
“preservar” os presidentes Lula e
Por que, então, ampliar a investigação para alcançar o governo anterior? Haveria, ou há, uma hipótese: se no curso das investigações se viesse a esbarrar com algo errado ocorrido no passado. Não foi o caso, pelo menos até agora. Então por quê? Para politizar as investigações e usar duas táticas: dizer, ameaçadoramente, “olha que eu investigo você também” ou insinuar que os dois governos são “farinha do mesmo saco”. A tática de igualar tudo desmoraliza a política e impede que o eleitor faça uma escolha fundamentada: sendo todos iguais, dá no mesmo votar em qualquer um.
Sou pessimista quanto
aos efeitos que mais essa onda de escândalos terá para melhorar o desempenho do
governo. Ele já usou demais o cachimbo. Mesmo assim, prefiro que a revelação
dos fatos prossiga, confiando na máxima: “água mole em pedra dura, tanto bate
até que fura”, e esperançoso em ver a Justiça decidir com maior presteza e
empenho. Meu desencanto decorre de episódios conhecidos. A ministra que usou
dinheiro público em um free shop, por
exemplo, apenas se equivocou, é “boa companheira”, dizem os governantes. Pode
até ser, mas nada justifica que se passe a mão em sua cabeça. Nem em preservar
o sigilo de gastos em nome da segurança do estado. Há gastos sigilosos
legítimos a serem preservados da luz pública imediata, embora devam ser
justificados na instância apropriada. O mau uso de gastos com a segurança, se
houver, constitui delito, como qualquer outro abuso do dinheiro público. Seria
simplesmente pueril alegar sigilo para proteger gastos realizados, digamos, há
mais de doze meses. Sua publicidade não pode pôr em risco a segurança das pessoas.
Não me surpreendo
mais com cinismo algum. Depois que o próprio Presidente, assessorado por algum
advogado de porta de cadeia, categorizou como “mero” crime eleitoral toda a
lambança do mensalão, quem há de? O que me revolta é o clima de que “todos são
iguais”. Tal generalização não pode ser aceita passivamente, sob pena de
ficarmos sempre a esperar um salvador da pátria, puro e incorruptível (que
geralmente se corrompe no poder) pois “os que estão aí” são todos iguais. Na
política não há anjos ou demônios, mas há homens públicos de diferentes
qualidades morais e estas contam. Podem não contar eleitoralmente, mas contam
para a construção de um país mais decente. Somos falíveis, naturalmente,
podemos errar. Mas acobertar o que é crime, chamando-o de engano é
incentivá-lo. Desrespeitar a Comissão de Ética do próprio governo chamando suas
advertências de “bobagem” é nivelar por baixo, confundido o justo com o
delituoso.
Isso tudo leva à descrença na democracia. Vivemos um paradoxo: o de uma sociedade cada vez mais vigiada (pelos órgãos do estado, pela mídia, pela internet etc.) e cada vez menos capaz de distinguir condutas e de punir crimes. Pior, o de uma sociedade cada vez mais indiferente à transgressão, como conseqüência da impunidade. A anomia chegou a tal ponto que denúncias em tribunais estrangeiros sobre propinas dadas a personalidades da administração não provocam sequer a reação retórica do acusado, que nem se dá ao trabalho de dizer: vou processar o caluniador. Enquanto isso o Presidente da República, permanentemente no palanque, se dá ao desplante de distorcer e enganar o povo, menosreprezando tudo o que foi feito por seus antecessores, apresentando-se como o único político que “ajudou os pobres”, gabando-se da inauguração da casa cujos alicerces e paredes se construíram com sua oposição constante. Cinismo igual a República nunca viu.