
Para aprimorar as políticas dos EUA
By Abraham Lowenthal
O Estado de São Paulo, February 23, 2008
Nesse contexto, ninguém deve esperar que a nova administração
Embora os países da América Latina e do Caribe não se mostrem como problemas
urgentes para Washington, eles são cada vez mais importantes para o futuro dos
Estados Unidos, não como áreas de crise, mas de uma maneira cotidiana. Isso é
verdadeiro por quatro razões principais:
Problemas comuns com os quais nem os Estados Unidos nem qualquer nação
latino-americana podem lidar sozinhos sem uma cooperação sustentada de parceiros
regionais. Esses problemas incluem migração, segurança energética, aquecimento
global e outras questões ambientais, drogas, criminalidade, saúde pública e
terrorismo internacional. Desde o atentado de 11 de setembro, autoridades do
governo americano mencionam com freqüência a última dessas questões em primeiro
lugar, mas as outras são mais importantes de uma perspectiva latino-americana
e, em última instância, talvez para os Estados Unidos.
A interdependência demográfica decorrente da migração maciça que está apagando
as fronteiras entre os Estados Unidos e os seus vizinhos mais próximos e dando
origem a problemas "interdomésticos" - aqueles com facetas
internacionais domésticas, variando da educação à saúde, das remessas de
dinheiro a cartas de motorista, de gangues juvenis a aposentadorias
transferíveis de um empregador para outro.
A importância da região para os Estados Unidos, como mercado prioritário para a
exportação de bens e serviços americanos e como principal fonte de energia e
outros recursos vitais para a economia americana.
E valores compartilhados, particularmente em direitos humanos fundamentais,
incluindo os direitos de livre expressão política e efetiva governança
democrática. O povo americano intui que esses valores centrais não podem
prevalecer em âmbito internacional, se não prevalecerem no Hemisfério
Ocidental.
A concentração desses quatro interesses sublinha o quanto nós, nos Estados
Unidos, ganharíamos se os países da América Latina e do Caribe pudessem reduzir
a pobreza massacrante, as amplas desigualdades e a exclusão étnica. Essas
condições alimentam a polarização, conduzem à exploração demagógica, solapam a
governança democrática, a estabilidade e as políticas sustentáveis de
desenvolvimento econômico. Se os Estados Unidos pudessem ajudar países da
América Latina e do Caribe a lidarem com essas questões difíceis, teríamos
vizinhos mais estáveis, mercados expandidos, oportunidades de investimento mais
atraentes, destinos turísticos mais favoráveis, fontes de energia mais garantidas
e parceiros mais dispostos a lidar com uma ampla agenda de preocupações
globais, incluindo a mudança climática, além de drogas e migração.
Os recursos americanos disponíveis são hoje limitados demais para causar um
impacto dramático na pobreza, na desigualdade e na exclusão; não é o momento
para uma nova "Aliança para o Progresso". Mas os Estados Unidos
certamente podem fazer mais nesse sentido que as pálidas imitações dos
programas venezuelano e cubano anunciados na viagem do presidente George W.
Bush à América Latina em 2007: visitas de um navio-hospital americano a vários
portos latino-americanos e doações de mais bolsas de estudo nos Estados Unidos.
Os Estados Unidos poderiam melhorar o impacto social das remessas de dinheiro;
apoiar programas de microfinanciamento; estabelecer um fundo de desenvolvimento
social de âmbito regional, tendo como alvo esforços de redução da pobreza e
engajar populações especialmente vulneráveis; fornecer crédito multilateral
para ajudar países importadores de energia a se ajustarem num período de custos
muito altos; apoiar reformas educacionais inovadoras; combater o tráfico de
armas pequenas; e lidar com gangues juvenis como um problema transnacional.
Muitos desses programas já existem numa escala modesta, mas a próxima
administração deveria lhes dar maior ênfase e apoio; isso não seria muito caro
e poderia fazer uma grande diferença em muitos casos. E Washington deveria
mobilizar esforços dos setores público e privado para fortalecer a
infra-estrutura na América Latina e expandir a produção de energia - ações
importantes para acelerar o crescimento da região, que é de grande interesse
para os Estados Unidos.