
Oportunidade perdida
By Fernando Henrique Cardoso
O Estado de São Paulo, O Globo and Zéro Hora, April 1, 2008
Preparei este artigo antes
de viajar para os Estados Unidos onde participo, hoje, de uma série de
discussões na Universidade de Brown, em comemoração aos quarenta anos da
primeira edição do livro que fiz com Enzo Faletto sobre Dependência e Desenvolvimento na América Latina. É a minha
despedida de Brown, depois de haver sido professor
at large (título que requereu curta permanência docente anual) durante
cinco anos.
Confesso
que não gosto de escrever com tanta antecipação. A natural falta de interesse
do leitor de jornal por notícias e mesmo por análises não atualizadas requer
temas momentâneos. Temas que, ultimamente têm sido francamente desanimadores
para quem acredita que a política não se limita a uma luta mesquinha pela
conquista e preservação do poder. Causa-me repulsa a falta de compromisso com a
verdade dos fatos, a desonestidade intelectual e, principalmente, o tratamento
cínico dispensado a indícios graves de improbidade na administração pública e a
benevolência com que são tratados infratores amigos ou aliados. Como ainda
agora no episódio dos cartões corporativos. A insensibilidade do presidente e
de seu governo é tanta que pouco se lhes dá a opinião pública. Com a
popularidade inflada pelos bons ventos da economia, joga-se irresponsavelmente
com a idéia de que a preocupação com a moralidade pública e o respeito à lei é
coisa de elite branca que tem tempo para ler jornal.
Quanta diferença com o que
se vê hoje nos Estados Unidos. Quem não leu deve ler a íntegra do discurso de
Barak Obama, A more perfect Union.
Nele, Obama reconecta a luta política aos melhores valores de uma República que
foi fundada com bases em ideais, entre eles o da igualdade. Um ideal sempre
imperfeitamente realizado, mas que constitui até hoje o móvel das melhores e mais
nobres lutas políticas do povo americano. Obama não se apropria do ideal para
utilizá-lo como arma eleitoral e dividir o país. Mostra assim a grandeza de sua
liderança.
Reproduzo um trecho
representativo do sentido de seu discurso. Nele reconhece e critica a
agressividade do pastor Jeremiah Wright nos sermões sobre raça proferidos na
Igreja da Trindade. Repudia, por outro lado, a crítica que apenas sataniza o
pastor e explica: “O erro profundo dos sermões do reverendo Wright não é que
ele tenha falado sobre raça em nossa sociedade. É que falou como se nossa
sociedade fosse estática, como se nenhum progresso houvesse existido, como se
ela ainda estivesse ligada irreversivelmente a um passado trágico. Isso em uma
nação que tornou possível para um dos membros da congregação disputar o cargo
mais elevado de sua terra e de construir uma coalizão entre brancos e negros,
latinos e asiáticos, ricos e pobres, jovens e velhos. Mas o que nós sabemos, o
que nós vimos, é que a América pode mudar. Este é o verdadeiro espírito desta
nação. O que nós já conseguimos nos dá esperança – a audácia da esperança –
para fazer o que nós precisamos e devemos fazer amanhã.”
Que diferença! Seria
demais esperar que Lula, que também é símbolo de uma sociedade dinâmica onde as
forças da mobilidade social contam mais do que a origem, percebesse que o país,
para avançar, precisa realizar o muito imperfeitamente realizado ideal da
igualdade perante a lei e que a moralidade pública é condição da igualdade
republicana e não preocupação de privilegiados? Não é isso que se deveria
esperar do Chefe da Nação? O que se vê, porém, é um presidente que não hesita
em reviver a velha cantilena dos “dois Brasis”, da elite branca e dos
oprimidos, dos maus e dos bons, e não raro justificar as práticas políticas
mais atrasadas. Isso em um país que o colocou no topo da vida pública e que se
caracteriza por ter uma elite composta pelos “brancos da terra”, tisnados com
orgulho pelos mais variados sangues, do indígena ao europeu, do negro ao
asiático.
Exagero da minha parte? Ou
a cantilena dos “dois Brasis” não foi o mote do discurso que Lula fez
recentemente em Pernambuco? Para afagar Severino Cavalcanti, chamou-o de vítima
do preconceito das elites de São Paulo e do Paraná, que teriam urdido uma trama
para seu afastamento da vida pública. Teoria conspiratória risível, se dita por
uma pessoa comum. Inaceitável, porém, vindo do presidente da República. Será a
prévia do que virá pela frente na campanha eleitoral de 2010?
Que perda de oportunidade
histórica! Por que não pensar em Mandela que saiu de vinte e oito anos de
cadeia e falou da necessidade de reconciliação entre negros e brancos na terra
do apartheid. Sem negar e repudiar, é
claro, a injustiça do racismo. E não se diga que os antecedentes de grandeza só
vêm do exterior. Basta lembrar de José Bonifácio, que desde o início do século
dezenove mostrava que o Brasil, como nação, teria de fundamentar-se na
diversidade das raças e no reconhecimento de que os valores da democracia e do
Iluminismo não poderiam se circunscrever, como pensava Jefferson, a uma elite
restrita, formada por brancos e ricos. Pelo contrário, afirmava o Patriarca, se
déssemos educação aos negros e aos indígenas, portadores de Razão como todo ser
humano, eles tornar-se-iam cidadãos.
Por que, ao invés de
passar a mão na cabeça de quanto aloprado exista ao seu lado, de ver amigos em
quem se deixa corromper e inimigos em quem honestamente dele diverge, nosso
Presidente, com todas as credenciais que tem de homem que nasceu no meio do
povo mais pobre e venceu, não une os brasileiros em torno do ideal fundador de
toda grande República?
Por que, ao invés de
congregar e definir valores comuns, se perde em picuinhas e se entusiasma tanto
em inaugurar pedras fundamentais de obras que não se constroem? Raramente o
país teve conjuntura econômica e mesmo social tão favorável para dar um salto
grandioso na construção de uma nação decente. Não obstante, a oportunidade se
está perdendo pela falta de visão de quem lidera.