Por que a relação Brasil-EUA seguirá tensa
By Peter Hakim
Folha de S. Paulo, December 19, 2010
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Dilma Rousseff vai herdar um relacionamento EUA-Brasil profundamente tensionado. Por mais habilmente que ela administre a política externa, é quase inevitável que os dois países entrem em colisão por anos ainda por vir. Suas agendas internacionais refletem interesses, prioridades e abordagens divergentes. Eles nem sempre serão capazes de controlar suas diferenças.
Nos assuntos regionais, o Brasil causou irritação profunda aos EUA no ano passado, quando se opôs ao acesso dos EUA a bases colombianas -apesar de, mais tarde, ter chegado a seu próprio, embora mais modesto, acordo militar com Washington. Brasil e EUA ainda divergem em relação a Honduras, mantendo um impasse divisivo nas relações hemisféricas. Ainda, os dois países têm posições radicalmente opostas com relação a Cuba.
Contudo, os laços entre EUA e Brasil serão mais dificultados no período próximo por questões globais, e não regionais.
O que mais exaspera Washington é a resoluta defesa brasileira do programa nuclear iraniano, ao lado da aparente indiferença do Brasil à repressão interna exercida pelo Irã, seu apoio a grupos terroristas e suas incansáveis ameaças a Israel.
O programa nuclear do próprio Brasil poderá em breve se tornar questão contenciosa nas relações EUA-Brasil. Os EUA não estão preocupados com a possibilidade de o Brasil desenvolver armas atômicas, mas temem que a posição do Brasil em relação ao Irã e os limites impostos às inspeções de suas instalações nucleares enfraqueçam os esforços globais de não proliferação. Idealmente, o desenvolvimento nuclear deveria ser uma área de cooperação. O acordo fechado por Washington com a Índia há três anos poderia servir como modelo para transferências tecnológicas dos EUA para o Brasil -se o Brasil se dispusesse a dar apoio ativo a iniciativas de não proliferação.
O comércio é mais uma fonte de atritos. As tensões comerciais aumentaram fortemente no ano passado, depois de o Brasil ter sido vitorioso na ação que moveu na OMC, que considerou ilegais os subsídios pagos pelos EUA ao algodão. Washington desativou a disputa, compensando o Brasil por suas vendas de algodão perdidas. Mas o protecionismo agrícola descarado dos EUA vai continuar a ser fonte de desavenças nas relações bilaterais.
Brasil e Estados Unidos compartilham muitos interesses em acordos comerciais globais.
Embora hoje pareça improvável que isso aconteça, EUA e Brasil, se unissem forças, aumentariam substancialmente as chances de que as negociações comerciais de Doha, hoje quase moribundas, pudessem ter desfecho produtivo. Os dois países terão papéis muito importantes em relação aos problemas das mudanças climáticas e da energia. O que não se sabe é se, nessas e em outras questões, eles terminarão por cooperar ou por entrar em choque, mas é certo que entrarão em confronto de vez em quando em muitas áreas.
A despeito da influência crescente do Brasil, os EUA ainda não enxergam o país como aliado estratégico potencial nem como ator econômico crucial ou importante em questões críticas de segurança. E julgam errática a política externa brasileira em direitos humanos, democracia e não proliferação.
Contudo, mesmo com suas relações tensas, os países nunca se consideraram adversários. Os dois governos se dispõem a tolerar diferenças consideráveis e a cooperar em instâncias específicas. Para que os EUA e o Brasil, cada vez mais poderoso, possam construir um relacionamento construtivo no futuro, será preciso muito mais esforço da parte dos dois governos. Mesmo assim, o conflito talvez seja mais comum que a parceria. Isso é algo que se pode esperar quando dois países poderosos precisam lidar um com o outro.