Obama vai elogiar Brasil, mas só ficará nas palavras, diz professor
By Interview with Peter Hakim
R7, March 19, 2011
Obama quer abrir um novo capítulo na relações com o Brasil, deve elogiar ascensão do país na cena internacional, mas não dará o tão sonhado apoio para que o país consiga um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas). É o que diz um dos maiores especialistas na relação Brasil-Estados Unidos, o acadêmico Peter Hakim, presidente do instituto Inter-American Dialogue.
Hakim explica que, apesar de Obama fazer um discurso no Rio, para os brasileiros, e outro em Santiago do Chile, para a América Latina, as palavras proferidas na Cinelândia terão importância para todo o continente, devido ao novo papel ocupado pelo país no cenário mundial.
Papel maior, mas nem tanto, explica Hakim. Apesar da badalação em torno do Brasil, a Índia, por exemplo, continua a ser mais importante para os EUA, por causa de sua localização estratégica. A aproximação de Brasília com o regime iraniano - ensaiada durante o governo Lula - também causa preocupações em Washington. Mas, segundo Hakim, Obama vem ao Brasil para um reinício das relações.
R7 - Qual o significado da visita de Obama ao Brasil para os EUA?
Peter Hakim - É difícil dar uma resposta clara a essa pergunta. Primeiro, falou-se que Obama usaria a viagem como oportunidade para se encontrar com a nova presidente [Dilma Rousseff]. Mas há muitos pontos interessantes na agenda, que é a busca por mais cooperação numa relação que sofreu algum abalo e que não é considerada plenamente satisfatória pelos EUA. A viagem será usada como um reinício para as relações, também porque Dilma é vista como mais pragmática [do que Lula].
R7 - O que Obama vai oferecer para o Brasil nessa nova relação?
Hakim - Não acredito que Obama terá uma grande novidade para dizer. Os EUA poderiam reconhecer o novo papel do Brasil e até apoiar um assento permanente ao país, como fez na Índia. Mas ele não vai fazer isso. Há questões que dividem o Brasil e os EUA e impedem esse apoio.
R7 - Quais questões?
Hakim - Principalmente a visão diferente em relação ao programa nuclear do Irã [após a mediação brasileira em um acordo nuclear iraniano, não aceita pelos EUA, em 2010]. Também a não assinatura por parte do Brasil do Protocolo Adicional do TNP [Tratado de Não Proliferação Nuclear – o protocolo estabelece uma fiscalização internacional mais rígida das instalações nucleares dos países].
R7 - O senhor acha que há alguma desconfiança dos EUA sobre o desenvolvimento de tecnologia nuclear no Brasil que não tenha fins pacíficos?
Hakim - Eu quero ser muito cuidadoso. Não acho que isso [desconfiança dos EUA sobre os objetivos nucleares do Brasil] seja uma grande preocupação. O problema é que o Brasil é um país grande e influente e a decisão de não aderir ao protocolo tem reflexos em outras partes do mundo. Assim, o Brasil acaba enfraquecendo o sistema internacional [de fiscalização nuclear].
R7 - Porque um discurso para os brasileiros? O que Obama irá falar no Rio?
Hakim - O discurso, certamente, vai buscar uma relação entre a sociedade americana e a sociedade brasileira. O discurso será mais retórico [do que prático]. Obama deve falar sobre questões comuns aos EUA e ao Brasil como o racismo, a herança africana, uma vez que o próprio presidente tem raízes [africanas]. Ele vai parabenizar o Brasil, pelas melhorias conquistadas.
R7 - Por que um discurso para os brasileiros, no Rio, e um para a América Latina, no Chile?
Hakim - O que ele dirá para o Brasil [no Rio] será mais importante para a América Latina do que falar da América Latina em si. Explico: acabo de voltar da Colômbia e o que eu ouvi por lá foi que o mais importante acontecimento na América Latina nos últimos tempos é a ascensão do Brasil [no plano internacional]. Então, o que ele vai dizer ao Brasil terá reflexos em toda a região.
R7 - O fato de Obama não dar apoio ao Brasil a um assento permanente no Conselho de Segurança e apoiar a Índia significa que esse país tem uma importância maior aos EUA do que o Brasil?
Hakim - A questão é que a Índia ocupa uma posição estratégica. É vizinha da China e tem o Paquistão ao lado. É uma região fundamental para os interesses dos EUA. Francamente, com todo o respeito, a América Latina e Brasil não ocupam esse local. O apoio à Índia se explica pela importância da vizinhança. Também há uma expectativa em torno de Dilma. Ela tem despertado um certo otimismo, pela postura pró-direitos humanos. Ocorre que ela ainda não deu mostras de como lidará com o Irã. Vamos lembrar que para Obama tudo é política e para muitos, no Congresso [americano], o Brasil não tem ajudado muito quando se refere ao Irã e à questão de Israel e os palestinos.
R7 - Há um grande marketing em torno da visita de Obama ao Brasil, num momento em que ele enfrenta baixa popularidade nos EUA. O discurso no Rio também será direcionado aos eleitores americanos?
Hakim - Eles são conscientes disso e estão dando grande atenção à viagem, num momento de dificuldades econômicas em Washington, com o temor de um grande problema nuclear no Japão. A América Latina tem se destacado por sua economia, é um continente onde a democracia tem se estabelecido. Essa é sua grande viagem à região, já que ele só esteve antes em Trinidad e Tobado e no México, onde há uma agenda muito específica. Será uma boa oportunidade para melhorar a comunicação com a América Latina.